NOS PASSOSS DA NOSSA HISTÓRIA

"Nos Passos da Nossa História" é uma série que compartilha  estudos sobre as origens e traçados históricos percorridos pelas danças tradicionais brasileiras.

CABOCLINHO

 

Hoje falaremos um pouco sobre a história do Caboclinho. Como muitas das danças que surgiram no período de colonização do Brasil ele é fruto da fusão europeia, africana e indígena. Nele no entanto o que predomina o componente ameríndio. O que boa parte dos estudos apontam é que o Caboclinho surgiu da introdução de elementos católicos em práticas indígenas já existentes aqui.

 

 

Existem boas publicações sobre o tema e lendo Câmara Cascudo encontrei uma referência ao primeiro registro do que viria a ser o Caboclinho. Ela foi feita pelo Padre Fernando Cardim que em 1584 descreveu:

 

 “Foi o padre recebido dos índios com uma dança mui graciosa de meninos, todos empenados, com seus diademas na cabeça, e outros atavios das mesmas penas, que os faziam mui lustrosos e faziam suas mudanças, e invenções mui graciosas” [1]

 

Portanto o caboclinho que podemos observar hoje, ao que tudo indica, é fruto de uma manifestação que, originalmente feita pelos índios em suas aldeias, começou em 1600 a sofrer interferência dos Jesuítas.

 

A partir desse período o caboclinho além de envolver a dança, música e uma vestimenta específica  ele incorpora um teatralidade.  Se dramatizavam cenas, pequenas histórias relacionadas ao contexto da colonização, se falava de guerras, reis, rainhas, caciques, pajé... Curiosamente esses elementos introduzidos pela Igreja não eram propriamente de ordem religiosa e sim relacionados a temáticas e relações sociais portuguesas, pois o interesse primordial era a aculturação dessa população.

 

 

Embora Mario de Andrade tenha chegado a registrar e descrever o Caboclinho como um auto, hoje em dia há poucos vestígios desse teatro. O que permaneceu foram apenas algumas falas soltas em que não é possível acompanhar uma narrativa pois essas falas se assemelham a gritos de guerra feitos ao início e fim da brincadeira.

 

 

Apensar de não estar relacionada diretamente com o catolicismo a a religiosidade é atualmente um tema de intensidade dentro da manifestação. O Caboclinho está relacionado ao Culto da Jurema, fruto do sincretismo afro- ameríndio. Os índios, desde o momento que antecede a chegada dos portugueses, já se usavam da planta em suas práticas religiosa. A partir do sincretismo com escravos africanos o culto passou manter elementos das duas matrizes. Hoje no entanto todo Caboclinho possui em sua sede um pequeno altar com uma profusão de entidades das mais variadas vertentes – católica, africana e indígena.

Aqueles que tomam parte da brincadeira, sobretudo os mestres, mantém uma série de práticas devocionais que ocupam a vida dos participantes sobretudo no período que antecede o carnaval.

 

 

Atualmente ele é encontrado no Rio grande do Norte, Alagoas, Minas Gerais e Pernambuco e há sem dúvida variações no modo com que é feito em cada região, tanto na instrumentação, como na vestimenta, nos passos etc.  As imagens que vcs veem aqui são do Caboclinho 7 Flexas de Recife, que ensaia no bairro periférico de Água Fria. Mas há na cidade diversos outros grupos cada um com seu nome, sua sede e sua enorme dedicação.

 

Em Recife os Caboclinhos ocupam dois momentos na vida dos participantes, o dos ensaios ou chamados treinos e outro da exibição ao público. Essa exibição acontece  sobretudo durante o carnaval, em que cada grupo se apresenta em diferentes bairros e sempre na terça feira de carnaval, no período noturno há um desfile na avenida Dantas Barreto com todos os grupos. O desfile possui um caráter competitivo, envolve colocações, prêmio em dinheiro e uma grande mobilização das comunidades ao longo do ano inteiro.

 

Antigamente, como maior parte das nossas brincadeiras, ele estava inserido no cotidiano dos participantes ou seja não havia um compromisso de apresentação para o outro, a manifestação tinha um fim em si mesma e correspondia aos anseios da comunidade. Atualmente em Recife esses Caboclinhos ocupam dois momentos na vida dos participantes, o dos ensaios ou chamados treinos e o outro da exibição ao público. Essa exibição acontece  sobretudo durante o carnaval, em que cada grupo vai ali se apresentando em diferentes bairros e sempre na terça a noite (ao fim do carnaval) há um desfile na avenida Dantas Barreto com todos os grupos. É um desfile competitivo, envolve colocações, prêmio em dinheiro, muita dedicação e esse desfile mobiliza as comunidades ao longo do ano inteiro.

 

 

Apesar do sincretismo religioso que acompanha a história do Caboclinho me lembro de um fato que presenciei ainda criança. Certa vez acompanhando meus pais a um dos ensaios - que eram sempre em bairros periféricos, própria rua da sede, estreita de paralelepípedos -  ele foi deslocado excepcionalmente para uma quadra no entanto quando chegamos lá o ensaio teve que voltar pra rua pois um grupo de evangélicos tinham quebrado e espalhado um monte de cacos de vidro pela quadra.

 

Por fim, observando a história do Caboclinho o que mais me admira é o modo com que essas interferências, que a primeira vista poderiam aniquilar a brincadeira, provocaram ali um modo de adaptação que termina por deixar ela ainda mais forte e autêntica.

 

 

BIBLIOGRAFIA:

 

  • SANTOS, Climério de Oliveira e RESENDE, Tarcísio Soares. Batuque Book Caboclinho Edição dos Autores. Recife. 2009

 

  • ANDRADE, Mário. Danças Dramáticas do Brasil. Itatiaia Editora. São Paulo 2002

 

  • REAL, Catarina .O Folclore no Carnaval do Recife. Fundação Nabuco, Recife 1990.

 

  • MAIOR, Mario Souto e SILVA, Leonardo Dantas. Antologia do Carnaval do Recife Editora Massangana, Recife 1991.

 

  • CASCUDO, Câmara Antologia do Folclore Brasileiro. Fundo de Cultura, Rio, 1967 – 2ª edição, FJA, Natal; 1980

 

  1. citado em CASCUDO, Câmara Antologia do Folclore Brasileiro. Fundo de Cultura, Rio, 1967 – 2ª edição, FJA, Natal; 1980

CAVALO MARINHO

 

Mario de Andrade diz que o Bumba Meu Boi  – cuja versão da zona da mata pernambucana é conhecida pelo nome de Cavalo Marinho – é a mais estranha, original e complexa de nossas danças dramáticas[1]. A denominação “dança dramática” é utilizado por ele para se referir às manifestações coletivas que se apresentam por meio de uma sequência de cenas que envolvem música, dança e teatralidade.

 

Segundo o escritor e musicólogo o Bumba Meu Boi é uma dissidência do Reisado. O Cavalo Marinho seria uma versão estendida, composta por dois ou mais Reisados. Portanto para falar sobre as origens do Cavalo Marinho é inevitável recorrer às origens do Reisado.

Como diz Theo Brandão, falar sobre o nascimento e evolução dos nossos folguedos populares é sempre uma tarefa difícil, pois são resultados de anos e séculos de contínuas fusões e interferências. [2]

 

Os Reisados se concentraram principalmente na região do Nordeste do Brasil.

Seu desenvolvimento em forma de cortejo, o período em que ocorre, assim como o próprio nome, remete às Janeiras e Reisadas portuguesas, grupos musicais que no período entre natal e dia de reis percorriam as vilas fazendo louvações na porta das casas das pessoas. O teor desses cânticos envolviam tantos temas bíblicos como desejos de boas festas. Segundo Theo Brandão, ainda em Portugal esses cortejos vão incluindo pouco a pouco além dos cantos representações e danças.

 

Reisadas em português de Portugal é sinônimo de rapaziada, de bando, e aqui no Brasil esse termo vai se masculinizar.[3]

 

Segundo o artista pesquisador Antônio Nóbrega essas peregrinações musicais vão sendo reproduzidas aqui no Brasil e ao longo dos séculos passam a incorporar figuras míticas, teatrais, já fruto de amálgamas brasileiras. Cada grupo de reisado passa a se identificar e ser batizado com o nome de sua figura mais expressiva como, por exemplo: Reisado do  João do Vale,  do Pinica- pau, do Jaraguá, do Cavalo Marinho, etc.

 

Para Mario de Andrade esses reisados começam com o tempo a se agrupar e  se desenvolver não mais em forma de procissões. Apesar desses novos grupos manterem particularidades todos preservaram o momento de representação da morte do Boi, essa figura mítica que percorria o imaginário do povo. Possivelmente por isso que  prevaleceu nesses novos agrupamentos nomes como Bumba Meu Boi, Boi de Reis, boi de mamão, mas ficam também  outras denominações tais como Cavalo Marinho, Auto de Guerreiro, Cordões de Bichos etc.

 

Como podemos observar o nome Cavalo Marinho antecede o formato da brincadeira que temos contato hoje, portanto as origens desse nome são bastante controversas.

Uns dizem que remete a um cavalo vindo de Portugal dotado de um trote que se assemelhava ao um dança..., outros dizem que faz alusão a figura de um tal de Capitão pertencente a família Marinho, outros que faz referência a um chicote feito de tira de pele de hipopótamo denominado de Cavalo Marinho e por fim há quem diga que o movimento de dança do Capitão, um personagem da brincadeira[4] que aparece montado em uma burrinha é inspirado no movimento do animal aquático Cavalo Marinho.

 

Porem, independente dessas nebulosidades é uma brincadeira com grande complexidade cênica que além da música envolve vários personagens cada um com sua maneira particular de falar, representar e dançar. Seu enredo, que dura muitas horas e que a primeira vista aparenta ser apenas bem humorado  e poético se olhado com cuidado e entendido no contexto em que está envolvido disfarça grandes críticas sócias.

 

NOTAS:

[1] ANDRADE, Mario de. Danças Dramáticas Do Brasil, 1o Tomo. Ed. Itaiaia. Belho Horizonte 1982 (p.54)

[2] BRANDÃO, Théo. O Reisado Alagoano. Ed. Ufal. Maceio, 2007

[3] ANDRADE, Mario de. Danças Dramáticas Do Brasil, 1o Tomo. Ed. Itaiaia. Belho Horizonte 1982 (p.36)

[4] Brincadeira é o nome usado pelos próprios participantes a manifestações populares do Brasil onde estão presentes linguagens artísticas como poesia, artes plásticas, teatro, música e dança.

BIBLIOGRAFICA

 

  • ANDRADE, Mario de. Danças Dramáticas Do Brasil, 1o Tomo. Ed. Itaiaia. Belo Horizonte 1982

 

  • BRANDÃO, Théo. O Reisado Alagoano. Ed. Ufal. Maceio, 2007

 

  • MURPHY, John Patrick. Cavalo Marinho pernambucano. Editora UFMG. Belo Horizonte. 2008

 

  • ACSELRAD, Maria. Viva Pareia! Corpo, Dança e Brincadeira no Cavalo Marinho de Pernambuco. Editora Universitária UFPE. 2013

SAMBA DE PARELHA

 

 

 

Falar sobre a história do Samba de Parelha é ainda um grande desafio, os registros encontrados são bastante recentes e são escassas as publicações dedicadas inteiramente ao assunto.

A informação mais divulgada associa as origens da brincadeira às manifestações dos escravos em suas datas comemorativas.

 

É possível imaginarmos que sua visibilidade começa a se ampliar entre pesquisadores a partir do Encontro Cultural de Laranjeiras existente a 41 anos na cidade de Laranjeiras próximo ao povoado da Mussuca, região quilombola onde se concentram grupos de Samba de Parelha.

 

Por hora iremos discorrer mais cuidadosamente sobre essa provável reminiscência africana.

A começar pelo nome. A palavra Samba vem de Semba que em “Bânto” ou “Bantú” significa umbigada. Perelha ou Pareia é sinônimo de par, dupla e pela forma espacial que a brincadeira se desenvolve é possível imaginar a existência do momento da umbigada, uma vez que anteriormente também era dançado por homens.

 

Considerando que o Samba de Parelha seria de origem Banto, iremos discorrer brevemente sobre as origens desse termo e como foi o processo de chegada deles ao Brasil.

 

A partir de 1580 com a o crescimento da produção de açúcar no Nordeste brasileiro, com a dificuldade da escravização de índios e a intensificação do português na costa africana, passa a ter um aumento da vinda de escravos pro Brasil. Nesse período predominou a vinda de povos da região do Congo, região com maior concentração de Bantos.

 

Mas ao que propriamente se refere esse termo Banto tanto mencionado nas pesquisas sobre as manifestações brasileiras de origem africana?

Foi através de Nei Lopes que localizei a informação mais clara.

Segundo o artista e pesquisador esse nome genérico Banto foi cunhado por volta de 1860 por um teólogo Alemão que viajando à África e, estudando as línguas africanas durante anos, unificou em um único grupo 2 mil línguas ao qual denominou como Banto. Em praticamente todas elas havia essa palavra Banto, que significa gente, indivíduo ou pessoa. A unidade entre essas línguas está na organização morfológica das palavras, as características dos povos são traduzidas através da organização dos prefixos. Por exemplo, se existem povos que reseidem na região do Kongo, ele pode falar o idioma Ki ou Tchi, nesse caso poderá ser identificado como um Kikongo ou Tchikongo, pode também pertencer a um grupo étnico Ba ou Wa, se identificando assim como um Bakongo ou Wakongo,  pode ser de origem Bu ou U, portanto um Ukongo ou Bukongo.[1]

 

Isso nos permite supor que todas partiram de uma mesma matriz e que por um processo iniciado a pelo menos a 2 mil anos antes de Cristo, com migrações e interações, elas passam a se diversificar e particularizar. É natural que se há uma semelhança na morfologia das palavras há também nos costumes, então é compartilhado por esse grupo aspectos de uma cosmovisão e algumas práticas religiosas.

 

 

Além da diversidade étnica e cultural transportada pelos Bantos ao Brasil chegam outras famílias como os Iorubas, no entanto esses grupos eram aqui identificados através de seus portos de origem como angola, congo, benguela, cambinda, etc.[2]

 

Apesar da inicial concentração de Bantos no Nordeste passa a ter internamente no Brasil deslocamentos populacionais e com eles novas interações culturais, como ocorreu por exemplo no período de decadência dos engenhos do Nordeste e do crescimento da produção cafeeira no Sudeste. Essas transformações econômicas foram responsáveis por novos intercâmbios culturais fazendo com que características bantos, indígenas e portugueses dialogassem.

 

Na África, como diz Nei Lopes, as danças, cantos e toques eram sempre associados  a louvação de divindades, feitos pra suavizar as durezas do cotidiano ou ressignificar sentimentos e nossas manifestações artísticas brasileiras em grande medida herdam isso. [3]

 

Irei por fim encerrar relatando duas histórias engraçadas da Dona Nadir, uma grande representante do Samba de Parelha. Em uma entrevista escrita ela relata que o bisavô dela iria fazer um samba de parelha no dia nascimento do filho da mulher que, segundo ela, foi responsável pelo início do Samba de Parelha, esse filho nasceu apenas a alguns dias antes do dia de São João, o grupo optou por esperar e deixar pra fazer o samba no dia 24.

A partir de então a brincadeira[4] é feita tanto no dia de nascimento de crianças como no dia de São João.[5]

 

Outra história, e essa eu ouvi dela, é que tocava-se pandeiro no Sampa de Parelha, mas com a morte do tocador de pandeiro ele deixa de ser tocado, portanto a tradição deixa de te ter o pandeiro.

 

O interessante de se ilustrar com essas histórias é como essas brincadeiras são moldáveis a acontecimentos do cotidiano e como isso as tornam vivas com um campo enorme de investigação e estudo

 

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

  • MUKUNA, Wa Kazadi. Contribuição na Musica Popular Brasileira: perspectiva etnomusicológicas. Terceira Marge. São Paulo. 2000

 

  • LOPES, Nei. Bantos, malês e identidade negra. Autêntica. Belo Horizonte. 2011

 

  • MELLO E SOUZA, Marina. África e Brasil Africano. Ática. São Paulo 2007

 

  • LOPES, Nei. História e Cultura Africana e Afro- Brasileira. Barsa Planeta. São Paulo 2008

 

 

 

 

 

[1] LOPES, Nei. Bantos, malês e identidade negra. Autêntica. Belo Horizonte. 2011 (p.96)

[2] MELLO E SOUZA, Marina. África e Brasil Africano. Ática. São Paulo 2007 (p.85)

[3] LOPES, Nei. História e Cultura Africana e Afro- Brasileira. Barsa Planeta. São Paulo 2008 (p.80)

[4] Brincadeira é o nome usado pelos próprios participantes a manifestações populares do Brasil onde estão presentes linguagens artísticas como poesia, artes plásticas, teatro, música e dança.

[5] Entrevista concedida a Luiz Antonio Barreto publicada no blog: http://www.sulanca.com/PESQUISA.ASP?PAG=2